
Em um dia cinzento de muita chuva e frio invernal, alguns salteadores viram surgir vindo do deserto a silhueta do que seria um cavaleiro e sua montaria. O vento do deserto parecia varrer cavaleiro e montaria para frente, os ladrões pararam para olhar a figura e deixaram de saquear os mortos da batalha.
Logo eles perceberam ser um cavaleiro errante que vinha de terras distantes. Naquele momento dois dos guerreiros se aproximaram do cavaleiro sem perceber a guarda baixa e com a curiosidade de donzelas virgens se aproximavam como que olhando uma aparição, pois para eles não era possível um homem e montaria cruzar toda a terra erma e chegar vivo.
Nas terras ermas existem Krakens das areias, aves gigantes, harpias e fantasmas. Areias movediças e redemoinhos de areia.
O cavalo e cavaleiro estavam exauridos e acabados pela distancia e pelos dias de sol e lutas, parecia terem viajado meio mundo até ali e lutado mil batalhas diferentes.
Mesmo diante da exaustão de sua montaria o cavaleiro apeava para que ela continuasse a andar indiferente aos que estavam a sua volta.
Cada movimento do cavalo era como se fosse o ultimo, cada movimento do cavaleiro as placas de sua armadura rangiam, sua viseira estava à abaixada e a escuridão era completa dentro de seu elmo.
Por instantes o cavaleiro respirou o ar com cheiro do oeste, o levante do ocidente trazia o cheiro dos velhos castelos dos senhores de coração frio.
O cavaleiro desmontou de sua montaria que em seguida caiu em agonia devido a grande jornada e logo morreu. O cavaleiro muito cansado perguntou a um dos homens: — Aqui já o ocidente?
— Sim errante, aqui é o ocidente. Respondeu o homem.
— Estou em casa então, devo conseguir outro cavalo e seguir para minha terra. Disse o cavaleiro.
Um dos homens segurando o cabo de sua espada colocou a mão no ombro do cavaleiro e disse:
— Daqui não passaras errante.
— Sou filho desta terra e mereço abrigo.
— Então será enterrado nela.
O errante olhou em volta e havia cinco guerreiros, dois estavam próximo demais e fáceis de serem mortos, bastariam um único golpe e derrubaria os dois e os demais só dependeria de sua destreza.
Apesar do cansaço, do peso de sua armadura, do escudo, cota de malha, gorjal, camal, bacinete e manoplas o cavaleiro errante poderia ainda ser mais rápido do que eles.
— Serás morto e enterrado perto daquele cipreste. Disse um dos homens que estavam mais distante.
— Prefiro ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas nas raízes de um salgueiro.
— Se lhe alegra errante jogaremos suas cinzas nas raízes do cipreste.
O cavaleiro rápido como um tigre, tão rápido e impressionante, como se o cansaço estivesse sumido, como se tivesse no auge de suas forças desembainhou sua espada, e com um único golpe matou na hora os dois que estavam perto sem ao menos dar-lhes chance de desembainhar suas espadas.
Antes de cair completamente ao chão os homens já estavam mortos. A morte vem nas horas menos inesperadas, era o que muitas vezes divagava o cavaleiro, nessa vida errante não basta ser bom, ser um grande guerreiro não é o suficiente, às vezes é necessário sorte e uma ajuda dos deuses se é que existem tais deuses. Um homem não precisava de muito, talvez um punhal, uma espada um escudo um bom cavalo e uma cota de malha para proteger seu couro.
Quando os outros vieram o cavaleiro já tinha apanhado seu escudo que estava preso à cela de seu cavalo e de espada em punho e viseira abaixada avançou para cima deles como se estivesse indo de encontro com a morte.
O primeiro veio com uma massa e um machado de guerra, armas fortes porem lentas diante do errante e logo caiu morto com massa e machado nas mãos, o segundo oponente veio aplicando golpe como um desvairado e no ato de desespero abriu a guarda e o cavaleiro errante partiu sua cabeça em dois pedaços.
O ultimo oponente respirava forte dentro de seu elmo rustico e enferrujado, o errante via que ele exalava medo e segurava uma espada surrada e velha, tremia um pouco e sem mesmo ter experiência de batalha sabia que ali era o mesmo local e derradeira hora. O errante sentiu que não era a sua hora, ali era a hora daquele guerreiro morrer.
O errante largou o escudo e avançou para cima do outro guerreiro e por longos dez segundo o errante parecia ter achado um bom oponente, mais que logo sucumbiu, se cansou e ficou com medo e abriu a guarda, e nesse momento o cavaleiro fincou sua espada na barriga do guerreiro que largou sua espada e caiu no chão.
A morte é uma grande vadia, vem e nos tira tudo na hora mais inoportuna pensou o cavaleiro por varias vezes ele próprio já imaginou que talvez já tivesse passado da hora, mais ele nem sabia que sua hora estava longe. O momento de morrer ainda estava longe.
O cavaleiro errante se aproximou do guerreiro que agonizava e com um chute tirou o elmo e viu que era um garoto com não mais que dezesseis anos, que estava pálido e morrendo, um garoto, pensou o cavaleiro. Ele nunca tinha matado um garoto, não sabia que estava lutando com um e talvez se soubesse não teria feito. Porém no campo de batalha os homens são todos iguais.
O cavaleiro levantou a viseira de seu elmo e com seus olhos verdes e com olheiras encarou longamente o garoto que aos poucos morria na ponta de sua espada, o cavaleiro pegou no cabo de sua espada que estava fincada no corpo do garoto e sentiu o jovem estremecer, e ao arrancar a espada o garoto morreu, olhando para o nada com seu olhar vazio.
— Garoto corajoso, poderia ter sido um bom cavaleiro… Disse o errante que ficou longamente em silencio olhando o corpo do jovem.
— Às vezes a verdade está na ponta da espada. Pensou alto o cavaleiro.
Viver na violência, morrer na violência era assim para todos e para o errante não poderia ser diferente, apesar de muitas vezes ele sonhar com uma morte boa e em paz, ele sabia que a morte viria por uma emboscada, no campo de batalha ou em uma justa.
Morrer sozinho e esquecido em terras ermas não traria uma vênia em sua homenagem, mas traria a paz.
— A chuva parou… Pensou o cavaleiro errante.
Que escolheu o melhor cavalo pegou umas das mulas dos homens e carregou ela com o quanto pode de mantimentos, ascendeu um fumo velho e tragou longamente, montou em seu cavalo novo e seguiu para o oeste deixando os corpos para os corvos. Há muito tempo eu tive um sonho de morrer em paz sozinho e de velhice, mais essa vida errante me reserva uma morte dessas, pensou o cavaleiro. A vida é um desperdício e já estou acostumado e calejado desses dias de fúria e um dia nunca é igual ao outro, sempre haverá uma espada para cruzar com a minha e sempre haverá alguém para tentar me matar… O que restará talvez seja a paz do pós batalha e nada mais…
É o que resta ao errante, vagar em um mundo violento e duro onde à vida de um homem não vale mais que um punhal.
Luciem sempre soube e aceita o que lhe resta…
Por
Cristiano Silva
“E de repente nos vimos na cobertura de uma prédio de 60 andares. Estávamos em um lugar que não era muito claro, era a luz de velas, com uma garrafa de vinho antigo e como trilha sonora um jazz calmo. Nada parecia mais certo do que nós estarmos dançando, no silêncio de juras de um dito amor espontâneo. E parecia que o tempo passava rápido, ligeiro e avassalador. Só me dou conta do tempo quando caíram as primeiros gotas de chuva que escorriam pela janela, a música parou, eu parei. E eu olhava para ela como se nós estivéssemos mais vivência e conhecimento um do outro, e perguntei: “Você lembra de um sonho seu que você tinha uns anos atrás?”, ela olhou para baixo meio envergonhada de não saber do que se tratava. Eu não respondi. Palavras as vezes não fazem jus ao que se pode acontecer. Eu soltei a mão dela e fui, sozinho, em direção as gotas de memórias que caiam de um céu escuro. Abri a porta e disse: “Vem”. Ela ainda com as bochechas rosadas olhava para baixo, me lembrando aquela garotinha meiga que conheci e que nunca deixou de ser, respondeu: “Não consigo ir sozinha”. Não consigo ir sozinha, essas palavras ecoaram nos meus ouvidos durante uma fração longa de segundos. Eu olhei pra ela, dei um sorriso roubado e fui em sua direção. Tomei sua mão como se fosse uma joia da monarquia, e a guiei em meu caminho misterioso. Ela saiu, e de repente o silêncio da noite, foi tomada pelo jazz novamente. E a chuva que caía em sua vestido roxo não interferia em nem uma vontade sequer de querer tê-la ao redor de meus braços. Mas a dúvida ainda permanecia em sua cabeça, ela parecia não saber o que pensar. Para matar a majestosa questão, eu sussurro em seu ouvido: “você lembra que você tinha um sonho infantil de beijar a pessoa que você ama na chuva?”. Os olhos dela brilharam. Talvez não por eu tê-la beijado, mas por eu ter lembrado de um sonho infantil. Ou talvez ter feito do sonho dela, o meu.”
Somos errantes, porém não somos meros figurantes!!!
Cris Silva
Cavaleiro errante